Por Carolina Herszenhut
Para Bourdieu, uma obra de arte não tem valor por si mesma. Ela adquire valor dentro de um sistema social específico, o campo artístico: um espaço onde artistas, críticos, galeristas, curadores e colecionadores competem pelo direito de definir o que é arte legítima.
Nesse campo, o que circula não é primariamente dinheiro, mas capital simbólico: prestígio, reconhecimento, autoridade. E a regra não escrita que sustenta tudo é a da economia invertida. Quem se vende bem, quem declara interesse no lucro, perde prestígio entre os pares. O dinheiro circula, mas sempre disfarçado de vocação.
Mas e se o campo não tivesse acabado, e sim se expandido?
Hoje todos nós somos produtores de imagens. A fronteira entre o artista legítimo e o mero produtor de imagens está porosa. Qualquer pessoa edita, publica e acumula audiência. E o artista está no centro dessa tensão de uma forma muito específica: ele não apenas faz obra, precisa documentar, narrar, postar, engajar. É simultaneamente produtor de arte e produtor de imagem de si mesmo.
O que isso significa para o capital simbólico de Bourdieu? Talvez que ele não tenha desaparecido, mas que novos agentes passaram a produzi-lo. Métricas de redes sociais são também uma forma poderosa de capital simbólico. Seguidores, views e engajamento funcionam exatamente como o prestígio no campo tradicional: dependem de crença coletiva para ter valor. Um artista com 500 mil seguidores acumula uma autoridade que o campo institucional precisa reconhecer, queira ou não. A diferença é que esse capital é público, mensurável e construído fora das instituições.
E é aí que surge uma tensão inédita. Um artista pode ter muito capital simbólico institucional e pouca métrica, e outro pode ter o caminho inverso. O campo ainda não sabe muito bem como hierarquizar os dois. Quem decide o que vale mais, o MoMA ou o Instagram? Essa pergunta, que seria impensável para Bourdieu, é hoje uma questão real para qualquer artista que tenta construir uma carreira sustentável.
Marcas e empresas passaram a exercer um papel de legitimação que antes cabia quase exclusivamente às instituições culturais. O campo se reorganizou, incorporando personagens e lógicas que Bourdieu não mapeou, mas que operam dentro de uma estrutura que ele reconheceria.
É o que chamo de Nova Jornada da Arte. Não uma ruptura com o campo artístico, mas uma leitura expandida dele, onde novas formas de circulação, parceria e mediação passaram a ser centrais para a sustentabilidade das carreiras artísticas contemporâneas.
Fico me perguntando o que diria Bourdieu hoje, num mundo onde visualizações são dinheiro, onde marcas escolhem o que é exposto num museu e onde nada mais é escondido. Talvez ele reconhecesse o campo. Mas certamente teria que reescrever algumas páginas.
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