por Carolina Herszenhut
Quando cheguei ao Japão no mês passado, fui recebida por um robô no aeroporto. Ele deu as boas-vindas em vários idiomas, com uma gentileza impecável. Naquele momento entendi que cada minuto naquele país seria assim: amar exatamente o que eu nunca havia imaginado.
Sempre sonhei em ir ao Japão — daqueles sonhos de criança, sabe? Sonhava com as compras, as comidas, as propagandas, os prédios. Mas a realidade superou qualquer imagem que eu tinha guardada.
O país é um misto permanente de caos e calmaria. Em poucos passos você vai de grandes templos de consumo — com uma quantidade de informação visual e sonora que faz inveja a qualquer metrópole — a esquinas que parecem esquecidas no tempo. Essa contradição não é acidente. É estética. É escolha.
Com o passar dos dias, fui entendendo que a população japonesa não é apenas educada: ela é treinada para o coletivo. Não foi raro ver crianças andando sozinhas pelas ruas — porque para os japoneses a responsabilidade por uma criança é de toda a sociedade, e por isso ela nunca está de fato sozinha. Pessoas nos abordavam para ajudar quando estávamos perdidas, mesmo sem falarmos o mesmo idioma.
Mas há algo nessa contenção que me intrigou profundamente. Sou brasileira, e carioca — e verborragia está no nosso sobrenome. Ver aquela sociedade nas vozes baixas, nos olhares indiretos, nas opiniões guardadas, me fez uma pergunta que não saía da cabeça: onde é que eles colocam o que sentem?
Visitei museus a céu aberto como o Hakone Open Air Museum, e ilhas inteiras como Naoshima e Teshima — antigas áreas de descarte de lixo transformadas em grandes espaços de arte contemporânea, com obras em absolutamente todos os lugares. O ato em si já é um gesto: pegar o que foi rejeitado e transformá-lo em lugar de contemplação.
Uma das descobertas que mais me marcaram foi o trabalho de Kenji Yanobe. Conhecido por obras que transitam entre o otimismo e a distopia, Yanobe cria esculturas que simulam objetos de consumo projetados para sobreviver após um holocausto nuclear. Seus gatos — figuras aparentemente ingênuas, quase fofas — carregam dentro de si todo o peso das bombas e da guerra. É uma estratégia precisa: usar a linguagem do infantil para dizer o insuportável.
E não é só Yanobe. Percebi que a infantilização está por todo lado na cultura visual japonesa — nos personagens, nas embalagens, na publicidade. A princípio parece escapismo. E talvez seja, em parte. Mas é também uma linguagem sofisticada para lidar com horrores que palavras diretas não conseguem — ou não podem — nomear.
Toda sociedade busca na arte uma forma de tornar público o que é íntimo, coletivo o que é individual, visível o que foi silenciado. No Japão, essa operação acontece com uma precisão particular: não há grito, há imagem. Não há confronto direto, há metáfora. O incômodo existe — e é real, e dói — mas chega no volume mínimo, quase sussurrado.
Foi isso que aprendi observando aquela sociedade de fora, com olhos de quem veio de um lugar onde tudo se diz em voz alta: que o silêncio também tem gramática. E que entender a arte de um povo é, talvez, a única forma honesta de entender o que eles não conseguem — ou não precisam — dizer.
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