Filipe Grimaldi e Priscila Barbosa ocupam o Cotonifício

Na exposição “Para falar de amor 2.0”, os artistas apresentam trabalhos que partem do universo do letrismo popular e da violência contra as mulheres para investigar as relações entre arte, vida cotidiana e espaço

No Largo do Paissandu, no centro de São Paulo, um edifício construído há mais de um século recebe uma exposição que escolhe não apagar as marcas do lugar. É nesse cenário, entre paredes em transformação, vestígios arquitetônicos e sinais de um uso ainda em curso, que a segunda edição de “Para falar de amor 2.0”, realizada pela plataforma Kura, reúne 53 artistas. Entre eles estão Filipe Grimaldi e Priscila Barbosa, artistas representados pela Aborda.

A escolha do Cotonifício Paulista desloca a experiência da exposição para fora do espaço expositivo convencional. Projetado pelo engenheiro italiano Giulio Micheli em 1915 e construído entre 1915 e 1916, o edifício foi pensado originalmente com uso comercial no térreo e residencial nos andares superiores. Tombado pelo Conpresp em 1992, hoje passa por um processo de transformação. 

Obras, rascunhos, instalações, objetos e registros do processo de trabalho dividem o espaço com a arquitetura, suas marcas e os vestígios de seus usos anteriores. A própria condição do prédio participa da experiência do visitante e estabelece relações diferentes entre os trabalhos e o lugar onde são apresentados.

Um lugar para o que carrega memória

Para Filipe Grimaldi, essa relação aparece de maneira particularmente direta em “Casa do Letrista”, instalação que reúne ferramentas, avental, prancheta, placas e outros elementos ligados ao ofício do letrista. Vitrôs com gabaritos latinos, um painel de filete de caminhão e anúncios de comidas populares dividem espaço com expressões como “Xêro” e “Mi Casa Su Casa”.

O trabalho parte de uma prática que durante muito tempo esteve associada à paisagem comercial das cidades e que hoje sobrevive entre diferentes formas de produção visual. Em “Casa do Letrista”, Grimaldi reúne os instrumentos e materiais desse ofício e os apresenta ao lado de trabalhos que desenvolvem sua pesquisa sobre a letra popular.

Na série “Sonhos de Ouro”, o artista utiliza folha de ouro na técnica do vidro reverso, aproximando procedimentos de tradição europeia de uma leitura latino-americana. “Mi Casa Su Casa” e “Las Comidas”, dedicada a comidas populares de diferentes países da América Latina, ampliam essa investigação sobre os modos como linguagem, território e cotidiano se inscrevem nas imagens. Há ainda uma colaboração com Celina, sua esposa, que articula tecidos latino-americanos à letra popular desenvolvida pelo artista.

O conjunto interessa justamente porque não separa a linguagem de sua dimensão cultural. As palavras escolhidas por Grimaldi pertencem à fala cotidiana, às placas, aos anúncios, às expressões afetivas e aos códigos visuais que atravessam a vida urbana. Quando entram no campo da arte, continuam carregando essa história.

Quando o doméstico deixa de ser um lugar seguro

A instalação de Priscila Barbosa parte de outro território cotidiano: a casa. Em “Te quero viva”, murais, telas e objetos se articulam em torno do direito ao amor seguro e à valorização de si. A artista convocou suas seguidoras nas redes sociais a escrever, à mão, a frase “Mulher, por tudo que há de mais sagrado, vai viver tua vida”. Recebeu 260 bilhetes e reproduziu suas caligrafias em pequenos papéis que passaram a integrar a instalação.

O gesto também desloca a ideia de cuidado: diante de uma cultura que historicamente associou as mulheres à responsabilidade pela vida e pelo bem-estar dos outros, “viver tua vida” aparece como reivindicação de autonomia.

A questão ganha uma dimensão mais contundente em “Conversinha”, mural da série “Arm4s Brancas”. Dois ferros de passar aparecem frente a frente, como se conversassem. O objeto doméstico, associado a uma tarefa cotidiana, assume a possibilidade de uma arma de defesa.

Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostram que a arma branca foi o instrumento utilizado em 48,4% dos feminicídios registrados no Brasil em 2024. O dado ajuda a compreender a escolha de Barbosa: em situações de violência doméstica, objetos disponíveis dentro da própria casa podem adquirir uma função que não fazia parte de sua finalidade original. 

Barbosa trabalha justamente sobre essa inversão. O ferro de passar, criado para uma função doméstica, passa a carregar a possibilidade de resistência. A casa, por sua vez, deixa de aparecer como cenário privado e protegido para ser confrontada como espaço atravessado por relações de poder.

O direito a um espaço próprio

A pergunta sobre o que significa ter um espaço verdadeiramente próprio acompanha a história da produção intelectual e artística das mulheres. Em 1929, Virginia Woolf formulou essa questão em “Um teto todo seu”, ao defender que uma mulher precisaria de dinheiro e de um quarto próprio para escrever.

Quase um século depois, a questão permanece atual, embora tenha ganhado novas camadas. Ter um espaço não significa apenas possuir quatro paredes. Envolve dispor do próprio tempo, do corpo, do desejo e da possibilidade de decidir sobre a própria vida. É nesse ponto que “Te quero viva” encontra uma dimensão política sem abandonar a escala íntima do trabalho.

A exposição reúne, assim, duas pesquisas que partem de universos muito diferentes. Grimaldi olha para a palavra popular, para o ofício e para objetos que guardam a memória de modos de fazer. Barbosa parte da casa, da escrita manual e de objetos cotidianos para discutir violência e autonomia. Em ambos os casos, aquilo que poderia permanecer restrito à vida comum passa a ocupar o espaço da arte.

A escolha do Cotonifício também interfere nessa leitura. O edifício carrega suas próprias camadas de uso, circulação e transformação, que passam a conviver com os trabalhos apresentados pela exposição. As obras são vistas dentro de uma arquitetura que possui sua própria história, criando relações particulares entre aquilo que os artistas produzem e o lugar que recebe a mostra.

No fim, falar de amor, nesse contexto, tem pouco a ver com uma ideia abstrata de afeto. Pode significar preservar uma memória, reconhecer um ofício, disputar o sentido de uma palavra ou reivindicar o direito de uma mulher ocupar seu próprio tempo e espaço. Talvez seja justamente aí que a exposição encontre sua questão mais ampla: nas formas como objetos, lugares e gestos cotidianos acumulam valores e conflitos que a arte consegue tornar novamente visíveis.

 

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