Entre 16 de maio e 22 de novembro de 2026, o Instituto Moreira Salles Paulista apresenta a exposição Dignidade e luta: Laudelina de Campos Mello, dedicada à trajetória da ativista que fundou o primeiro sindicato das trabalhadoras domésticas do Brasil. Entre fotografias, documentos e objetos históricos, a mostra reúne também obras de artistas contemporâneos que expandem as questões propostas pelo percurso expositivo. É nesse contexto que se insere Supernanny Brasil, de Alberto Pereira, representado pela Aborda.
Em Supernanny Brasil, Pereira toma como ponto de partida a litografia Castigo de escravos, publicada por Jacques Étienne Victor Arago em 1839 a partir de desenhos realizados durante sua passagem pelo Brasil nas primeiras décadas do século XIX. A imagem retrata uma pessoa negra submetida à máscara de Flandres e à gargantilha de ferro, instrumentos de tortura utilizados contra pessoas escravizadas. Décadas depois, essa representação passou a ser associada, no imaginário popular, à figura de Anastácia, transformando-se em um dos símbolos mais conhecidos da violência do regime escravista.
Na releitura de Pereira, a cena é deslocada para o presente. A pessoa amordaçada torna-se uma babá negra que empurra o carrinho de bebê de seus empregadores. O artista aproxima dois momentos históricos para sugerir que determinadas relações de poder não desapareceram, apenas assumiram novas configurações.
A presença da obra ganha densidade no contexto da exposição dedicada a Laudelina de Campos Mello (1904–1991). Referência na luta pelos direitos das trabalhadoras domésticas, Laudelina articulou sindicatos, associações e movimentos negros em defesa do reconhecimento profissional de uma categoria historicamente marcada pela precarização e pela herança da escravidão.
Ao reunir documentos históricos e produções contemporâneas, a mostra evita apresentar essa trajetória como um capítulo encerrado da história brasileira. As obras convidam o visitante a observar como muitas das questões enfrentadas por Laudelina permanecem presentes nas relações de trabalho, nas desigualdades raciais e nas imagens que circulam socialmente.
Essa investigação atravessa a produção de Alberto Pereira. Seu trabalho parte da apropriação de imagens, do lambe-lambe, da colagem e de manipulações digitais para examinar como determinados símbolos atravessam diferentes épocas e adquirem novos significados. Em vez de produzir imagens inéditas, o artista frequentemente revisita arquivos visuais já conhecidos, revelando como eles continuam estruturando percepções sobre raça, identidade, tecnologia e cultura visual.
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