Nenhuma criação artística emerge do vácuo. Todo criador opera a partir de um diálogo – por vezes consciente, por vezes inconsciente – com as imagens e ideias que o formaram. Analisar as referências no trabalho de uma artista como Eva Uviedo é, também, uma chave fundamental para compreender como sua visão de mundo se estrutura e ganha forma. É investigar de que modo um repertório pré-existente é filtrado, reconfigurado e, por fim, traduzido numa linguagem que busca dar conta de temas tão íntimos e universais quanto a memória afetiva, a experiência do corpo feminino e a consciência da impermanência.
Um dos pilares dessa construção é, sem dúvida, a conexão com as gravuras japonesas do período Edo e a técnica do sumi-ê. Como aponta Aline Moraes, curadora da Aborda, o ukiyo-e (as “imagens do mundo flutuante”), com sua história rica e foco em cenas cotidianas, paisagens e figuras capturadas pela xilogravura, oferece um ponto de partida significativo. Mais do que a semelhança formal no traço ou na composição, Moraes destaca o interesse comum em “expressar o impermanente”. A visão de mundo transitória, capturada por mestres como Katsushika Hokusai, Utagawa Hiroshige e Kitagawa Utamaro, parece ressoar na forma como Uviedo elabora suas “paisagens particulares sobre afetos”. O legado do ukiyo-e fornece um modelo para condensar tempo e sentimento, para estilizar a experiência sem perder sua essência.
Essa sensibilidade para o efêmero encontra um contraponto marcante na energia que Uviedo absorve das estéticas da Guatemala e do México. O uso de cores intensas e padrões inspirados em bordados e estampas tradicionais injetam vitalidade e ancoram seu trabalho em uma memória cultural específica. Esse interesse pela materialidade, pela textura e pela própria construção física da obra, conecta-se diretamente à exploração da colagem e da técnica mista.
O caminho explorado por Uviedo encontra eco em investigações contemporâneas: pensemos em como a norte-americana Ashley Blanton utiliza a textura da colagem para mapear sensações internas, ou na sensibilidade com que a chilena Leonor Pérez B emprega a mesma técnica para abordar a memória. Mesmo a experimentação com diferentes materiais da italiana Elisa Talentino parece fazer parte dessa conversa mais ampla sobre como os materiais podem, por si sós, construir narrativas íntimas e complexas.
A representação da figura feminina e da emoção, por sua vez, se manifesta frequentemente através da aquarela. A fluidez da técnica, explorada com liberdade expressiva por artistas como o espanhol Conrad Roset, ou com delicadeza para tratar de temas como amor e feminismo pela valenciana Paula Bonet, permite a Uviedo traduzir as nuances – a força e a vulnerabilidade – da experiência feminina.
Essa abordagem é, por vezes, complementada pela palavra escrita. A integração entre texto e imagem, que nos leva a pensar na prática da norte-americana Maira Kalman – conhecida por combinar humor, poesia e reflexão sobre a condição humana em seus livros ilustrados –, sugere que Uviedo busca, em certos momentos, ir além do que a imagem sozinha pode comunicar, adicionando uma camada extra de sentido, emoção ou reflexão através do texto.
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