Museu da Abolição incorpora Debret Delivery ao seu acervo

A obra de Alberto Pereira passa a integrar a coleção da instituição durante a exposição Que Herança Você Vai Poder?, que reúne artistas em torno dos legados da escravidão e das disputas pela memória no Brasil.

A obra Debret Delivery, do artista visual Alberto Pereira, passa a integrar o acervo do Museu da Abolição (MAB), em Recife (PE). Criada em 2019, a obra integra a exposição coletiva Que Herança Você Vai Poder?, que reúne 31 trabalhos de 25 artistas em torno de uma pergunta que permanece aberta na sociedade brasileira: quais heranças da escravidão ainda estruturam o presente? 

Na obra, Alberto Pereira parte de uma das imagens produzidas por Jean-Baptiste Debret durante o período imperial brasileiro. Na composição original, uma pessoa negra aparece carregando sobre a cabeça um objeto associado ao trabalho compulsório e às dinâmicas da escravidão. Na intervenção realizada pelo artista, essa mesma figura passa a carregar também uma mochila de delivery. A justaposição entre os dois elementos desloca a imagem histórica para o presente e estabelece uma reflexão sobre a permanência das desigualdades raciais e das formas de exploração do trabalho.

Ao longo de sua pesquisa, Alberto Pereira investiga as relações entre memória, representação e poder, apropriando-se de imagens amplamente difundidas pela historiografia para questionar as narrativas que ajudaram a consolidar determinados imaginários sobre o Brasil. Em Debret Delivery, o artista evidencia como estruturas sociais construídas durante o período escravista continuam produzindo efeitos nas relações de trabalho e na distribuição de oportunidades.

A obra já integra o acervo do Museu de Arte do Rio (MAR) e, agora, passa a fazer parte também da coleção permanente do Museu da Abolição.

Com curadoria de Alex de Jesus e pesquisa curatorial coordenada pelo próprio curador, com consultoria de Ariana Nuala, Fabiana Moraes, Lia Letícia e Maria Emília Vasconcelos, Que Herança Você Vai Poder? propõe uma reflexão sobre os impactos da abolição da escravidão e a ausência de políticas efetivas de inclusão, acesso e reparação destinadas à população negra após 1888. As obras reunidas na mostra abordam diferentes dimensões desse legado histórico, articulando questões ligadas ao trabalho, à representação, à memória e às disputas em torno da construção da história brasileira.

Vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), o Museu da Abolição (MAB) é o único museu federal brasileiro dedicado à preservação e à difusão das memórias da abolição da escravidão e das culturas afro-brasileiras. Instalado no histórico Sobrado Grande da Madalena, em Recife, consolidou-se como um centro de referência para a pesquisa, a preservação e a difusão do patrimônio material e imaterial afro-brasileiro, promovendo exposições, pesquisas e ações educativas voltadas à reflexão crítica sobre a história da escravidão, seus desdobramentos e seus impactos na formação do Brasil.

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