Por Carolina Herszenhut
Tenho pensado muito sobre autoria.
No campo das artes visuais, ela ainda é tratada como um troféu — algo que se ergue em nome de um só, mesmo quando tantas mãos, olhares e vozes participaram do percurso.
Seguimos repetindo o mito do artista solitário, como se a criação acontecesse num vazio, isolada das trocas que a tornam possível.
Mas basta observar o processo de perto para perceber o contrário: toda obra nasce de uma rede.
Há quem produza, quem monte, quem ilumine, quem traduza, quem cuide. Há quem dê o contexto, quem empreste o espaço, quem confie, quem critique, quem acolha. A arte, no fundo, é um sistema de interdependências — um ecossistema de relações que pulsa em torno de um gesto criativo.
Ainda assim, o sistema insiste em celebrar o indivíduo.
É curioso: quanto mais se fala em colaboração, mais a lógica do reconhecimento parece estreita. O nome que assina segue sendo o que vale, enquanto as tramas que sustentam a obra seguem invisíveis. É como se a própria ideia de valor artístico estivesse presa a uma visão de escassez — um modelo onde poucos brilham, e o coletivo é reduzido a bastidor.
Nos últimos tempos, tenho me aproximado da noção de sintropia.
A palavra vem da física, mas tem me servido como metáfora.
Enquanto a entropia fala da dispersão e do desgaste, a sintropia aponta para o movimento oposto: a força que conduz os sistemas para a harmonia, a regeneração, a complexidade.
É o princípio que sustenta a vida — a cooperação entre diferentes elementos que, ao se relacionarem, criam algo maior que a soma das partes.
Talvez a arte funcione assim também.
Quando criamos em rede — artistas, curadores, produtores, instituições, comunidades — o processo se torna sintrópico: cada interação gera energia, e essa energia alimenta o que vem depois.
É uma criação que não se esgota no objeto, porque o próprio caminho é fértil.
A obra deixa de ser um ponto de chegada e passa a ser um campo vivo de relações.
Penso que precisamos falar mais sobre isso.
Sobre o fazer coletivo, sobre o direito à coautoria, sobre as práticas de cuidado e reciprocidade que tornam a arte possível.
Não se trata de apagar a singularidade do artista, mas de reconhecer que o gesto criativo só se sustenta porque há um mundo inteiro em volta dele.
A sintropia, nesse sentido, é uma forma de resistência.
Em vez de competir, cooperar.
Em vez de concentrar, distribuir.
Em vez de esgotar, regenerar.
É um convite para repensar o que entendemos por autoria — e talvez para admitir que criar, no fundo, é sempre um ato coletivo.
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