O projeto surgiu a partir de um contexto claro: durante a reforma de seu apartamento, o morador – Fernando Goulart – convidou Luna Bastos para criar um mural interno capaz de expressar identidade, conexão com o Brasil e singularidade do lar. A obra se insere no espaço de maneira integrada, convivendo com os materiais, percursos e usos do apartamento.
A pesquisa acionada por Bastos articula duas matrizes visuais que pertencem a histórias distintas do Atlântico Sul. De um lado, os grafismos Karajá, com destaque para padrões de curvas orgânicas recorrentes na tradição Karajá, associados a práticas realizadas por mulheres e que permeiam cestarias, cerâmicas, esculturas em madeira e pintura corporal, muitas vezes vinculados a contextos cosmológicos específicos. De outro, a simbologia Adinkra, da África Ocidental, com o losango Ani Bere A Enso Gya, símbolo de paciência, autocontrole e disciplina — “não importa o quão vermelhos fiquem os olhos, eles não acendem chamas”.
A escolha desses grafismos também dialoga com a descendência indígena do morador, estabelecendo uma conexão pessoal e simbólica entre a obra e a história familiar. A artista, no entanto, não pretende fundir ou equiparar essas referências; o que surge é uma gramática autoral, construída por ritmo, repetição e variação de escala, que estabelece relações entre os padrões sem apagar suas origens. O cruzamento evidencia afinidades formais, como o diálogo entre curvas e losangos, e reconhece a singularidade cultural de cada referência. Essa operação se insere em uma pesquisa contínua de Bastos: elaborar visualidades para a afrodiáspora no Brasil, sem perder de vista a presença indígena na formação do país.
No apartamento, o mural ocupa a parede como plano contínuo, criando campos de atenção e estabelecendo um eixo que organiza o ambiente. O desenho respeita encontros de superfícies, respiros visuais e a distância típica de observação em um espaço doméstico, permitindo uma leitura detalhada de perto e uma composição estruturante à distância.
O resultado atende ao pedido do morador, afirmar pertencimento e memória, e também oferece uma reflexão sobre o papel da arte em residências. A pintura funciona como dispositivo de narrativa, tornando visíveis referências que sustentam a história de quem habita e agregando densidade simbólica ao projeto arquitetônico.
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